O 22º Congresso Brasileiro de Sociologia, que acontece entre os dias 15 e 18 de julho de 2025 na Universidade de São Paulo (USP), destaca as pesquisas em Ciências Sociais sobre migrações, refúgios e (i)mobilidades globais.
A partir do tema central do Congresso com a proposta “O Mundo Contemporâneo Desafia a Sociologia”, a temática das migrações enfatiza a complexidade das redes sociais, as práticas cotidianas de pertencimento e os desafios enfrentados pelas populações migrantes e refugiadas no contexto urbano, bem como a interseção com questões globais como as mudanças climáticas e o aumento das desigualdades sociais.
As investigações ampliam o olhar sociológico para as múltiplas dimensões das mobilidades transnacionais, os impactos das crises multidimensionais e as dinâmicas das redes sociais que atravessam fronteiras. Essa mudança reflete o esforço em compreender as transformações recentes nos fluxos migratórios e os desafios que colocam para as políticas públicas, os direitos humanos e as infraestruturas socioespaciais, promovendo diálogos interdisciplinares e inovadores para responder aos desafios contemporâneos
Serão ao menos três grupos de trabalho que abordam a questão migratória ao longo da programação do Congresso:
- GT10: Migrações Internacionais Contemporâneas. Novos fluxos e perspectivas de análise, coordenado por Gisele Maria Ribeiro de Almeida (UFF), Marcio Sergio Batista Silveira de Oliveira (UFPR) e Marcelo Alario Ennes (UFS).
- GT11: Mobilidades Socioespaciais e Infraestruturas, coordena por Alexandre Almeida de MagalhÃes (UFRGS), Bianca Freire-Medeiros (Universidade de São Paulo), Palloma Menezes (IESP-UERJ).
- GT23: Trabalho, migrações e violência no rural contemporâneo, coordenado por Maria Aparecida de Moraes Silva (UFSCar), Lúcio Vasconcellos de Verçoza (UFAL), Graziela da Silva Motta (IFFar ).
Migrações, Refúgios e Suas Redes em pauta
Na programação, destaca-se a Sessão 03 do Grupo de Trabalho 11, “Mobilidades Socioespaciais e Infraestruturas”, que ocorre na quinta-feira, dia 17 de julho de 2025, das 15h45 às 17h30 na sala 110 do prédio da Letras.
O foco do debate entre os trabalhos submetidos ao painel será “Migrações, Refúgios e Suas Redes”, temática particularmente relevante diante da intensificação global dos fluxos migratórios, incluindo os deslocamentos de pessoas em situação de refúgio.
Além da Profa. Camila dos Santos Moraes, a sessão conta com a participação de Karina Quintanilha, Doutora em Sociologia pela Unicamp e pós-doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da USP, co-coordenadora do projeto de extensão Fronteiras Cruzadas na FFLCH-USP. No segundo semestre de 2025, o tema será aprofundado no MiniCurso (I)mobilidades Globais em Perspectiva: Articulando Cidade, Trabalho e Migração, organizado pela Profa. Vera da Silva Telles, que discutirá “parâmetros teóricos e grades analíticas que vêm pautando pesquisas e debates acadêmicos sobre o impacto dos fluxos migratórios transnacionais nas dinâmicas sociais das cidades”.
GT 11: Mobilidades Socioespaciais e Infraestruturas
Sessão 03 – Migrações, Refúgios e Suas Redes
Coordenadora: Camila Maria dos Santos Moraes (UNIRIO)
Debatedora: Karina Quintanilha Ferreira (USP / Fronteiras Cruzadas)
Data: 17/07/2025 das 15:45 às 17:30
Local: Sala 110 – Prédio da Letras – FFLCH-USP – Edifício Prof. Antonio Candido, Av. Prof. Luciano Gualberto, 298-460 – Butantã, São Paulo – SP, 05508-010
Abaixo a relação do resumo dos artigos aceitos para os debates no grupo de trabalho.
Caio da Silveira Fernandes (CEBRAP), Maria Cláudia S. de Paiva (PUC-SP) O Brasil na rota das migrações globais para os EUA e Canadá: os abrigos para migrantes da RMSP como infraestruturas de trânsitos migratórios. Resumo: Este artigo tem como objetivo analisar os papéis que as infraestruturas urbanas da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) desempenham no trânsito migratório para os EUA e o Canadá. Mais especificamente, enfatizamos como abrigos temporários para migrantes têm sido usados como infraestruturas de mobilidade por pessoas provindas da Ásia, África e Caribe. De um recurso de acomodação, como prevêem as concepções originais dos abrigos, as práticas migrantes atribuem a eles novas funções ao articulá-los a uma extensa rede migratória presente no continente. Como Collyer (2007) e Khosravi (2010) argumentam, quando os controles de migração se tornam mais sofisticados, as rotas se tornam mais fragmentadas e múltiplas em suas dimensões temporais e espaciais. O argumento do texto é que mesmo em cidades distantes das fronteiras podem existir infraestruturas fundamentais que compõem diversas rotas migratórias. Teoricamente, nos valemos do cruzamento teórico entre os estudos de mobilidades (URRY, 2007; CRESSWELL, 2010; SHELLER, 2017; 2018; FREIRE-MEDEIROS e LAGES, 2020) e o das infraestruturas (STAR, 1999; LARKIN, 2013; JUNG e BUHR, 2021). Metodologicamente, nos baseamos em entrevistas com roteiro semi-estruturado com voluntários, funcionários e migrantes de dois abrigos. O primeiro está situado na cidade de Guarulhos e é exclusivamente voltado ao atendimento de afegãos. O segundo, em operação há 50 anos, está no centro da cidade de São Paulo e não possui restrição de nacionalidade. |
Giovanna Lucio Monteiro Macedo (IESP-UERJ) Habitando construções e ruínas: Casas e Infraestruturas no campo de refugiados Burj el-Barajneh e no Complexo da Maré. Resumo: Essa pesquisa propõe a casa como um ancoradouro analítico para observar o continuum entre construção e ruínas que caracterizam as formas de construir infraestruturas em margens urbanas. Parto de uma etnografia de arquivo, com enfoque em fotografias e jornais, para analisar os casos do Complexo da Maré (RJ) e o campo de refugiados de Burj el-Barajneh (Beirute). Meu objetivo é entender a expansão, o crescimento e a verticalização contínua, ainda que através de uma série de conflitos e abandonos. Através dos arquivos entendo as infraestruturas como produtoras de uma paisagem que é habitada em movimento mas que se revela para a pesquisadora – em sua materialidade e pelas fotografias – como estática. A construção das casas, da rede de água, de luz e de grandes rodovias carregam promessas e projeções de um futuro que é, ao mesmo tempo, sempre melhor e inegavelmente conflituoso. A partir de resultados preliminares de pesquisa entendo que o desenvolvimento urbano desses espaços acontece de forma cíclica, em um continuum entre construções e ruínas que são atravessados por ciclos de violência urbana. Assim, todo processo construtivo tem como horizonte de expectativa a certeza de uma ruína futura, produzida ora pelo descaso público, ora por explosões de ciclos de violência – como operações policiais, intervenções e guerras. Essa temporalidade cíclica se revela na paisagem e na forma de construir as infraestruturas. |
Christiane Machado Coêlho (UnB) “Cidades e Mobilidade. Processos urbanos e dinâmicas socias. A situação dos brasileiros em Portugal”. Resumo: Os processos migratórios estão relacionados a construção das sociedades contemporâneas. Em função da crise da sociedade salarial (Robert Castel, 1995), do funcionamento da sociedade em rede (Manuel Castells, 1999) e do dinamismo dos fluxos migratórios (Pena Pires, 2003), estas temáticas podem ser relacionadas na compreensão dos processos que estão em curso na sociedade atual (Pierre Rosanvallon, 1995). Há diferentes processos de integração dos imigrantes às cidades. |
Thalissa Cavejon (UFSC) A imigração em Joinville/SC e suas faces no Mercado de trabalho: Mapeando as desigualdades, intersecções de gênero e raça. Resumo: Este trabalho em nível de doutorado, visa observar a cidade de Joinville/SC, onde reflete uma questão global sobre as contradições sociais presentes na inserção social/laboral dos imigrantes. Conceitua-se que, a migração é o resultado de forças estruturais e sociais, que por vezes, não são escolhas livres, mas uma diáspora forçada por crises e fatores históricos, onde o imigrante é visto como força de trabalho temporária, com direitos frequentemente subordinados às fronteiras políticas e econômicas (Sayad,1998). Na teoria das migrações, a tensão entre a aceitação e a exclusão, e que os migrantes frequentemente enfrentam discriminação e estigmatização, na condição de ser um “outro”, não sendo apenas uma questão de diferença cultural ou racial, mas também um reflexo das dinâmicas de poder e das percepções sociais (Sayad,1998). Sob esta perspectiva das migrações, a pesquisa foca na análise da inserção no mercado de trabalho dos migrantes internacionais observando questões interseccionais (Collins, 2019), observando a ausência de tais dados nos documentos oficiais do município. A metodologia da pesquisa se desenvolverá por meio de análise documental, bibliográfica e estatística, cruzando as informações para análise das posições sociais no mercado de trabalho formal a partir da Classificação Brasileira de Ocupações. Desta forma, a hipótese é de que marcadores de raça e gênero, moldam a experiência migratória no mercado de trabalho joinvilense. |
Vinícius de Souza Mendes (FFLCH-USP), Gabriela da Silva Figueiredo Rocha (FFLCH/USP) Festas como ancoradouros: os casos das festividades bolivianas em São Paulo e da Festa Confederada de Santa Bárbara d’Oeste Resumo: A partir do paradigma das mobilidades (Urry, 2007), neste trabalho, pretendemos analisar festas migrantes em dois contextos distintos: o primeiro diz respeito às festas Fé e Cultura e a Nosso Folclore e Fé, as duas maiores festividades bolivianas em São Paulo, organizadas pelas entidades ACFBB e ACFIBB em 2024; o segundo à Festa Confederada em Santa Bárbara d’Oeste, que celebra a imigração de confederados dos Estados Unidos para o Brasil. Embora relativamente diferentes entre si, elas guardam semelhanças em suas lógicas móveis, e podem oferecer novas possibilidades de análise. O objetivo é mostrar, a partir do debate do paradigma das mobilidades, como essas festividades são espécies de estruturas temporárias que, por sua vez, são capazes de colocar pessoas, imagens, dinheiro, narrativas e ferramentas políticas em circulação ao seu redor. Para isso, lançamos mão do conceito de ancoradouro: ainda que se apresentem como eventos efêmeros, quando não restritos às suas “comunidades”, tomá-las dessa forma nos permite observar conexões urbanas, transnacionais e multiescalares estabelecidas para e em função da sua existência. Seu acontecimento pode informar sobre arranjos socioespaciais articulados em redes, cujas dinâmicas sociais, culturais, políticas e econômicas informam tanto sobre a produção transnacional do espaço urbano a partir das mobilidades de elementos tangíveis e intangíveis, como representações simbólicas, mercados diversos, atores políticos, imagens, entre outros. |
Mauricio Piatti Lages (Universidade de São Paulo), Guilherme Olímpio Fagundes (PPGS USP) Contribuições da análise de redes para a sociologia das mobilidades Resumo: Como a sociologia das mobilidades pode aproveitar das contribuições da análise de redes? Nossa proposta é tecer aproximações metodológicas e tratar a análise de redes como um tipo de “método móvel” (Büscher e Urry, 2009). Nas obras de John Urry, há uma ambiguidade essencial no uso da noção de rede. Ora a rede aparece como um operador analítico para dar conta de aglomerados e complexos sociotécnicos em diferentes escalas, na esteira de Möl, Law, Latour, Knorr-Cetina e de outros autores da Teoria do Ator-Rede (TAR) e dos Estudos de Ciência e Tecnologia (STS), ora a rede aparece como uma técnica de análise e de mensuração das interações, laços ou conexões humanas. A exposição das linhagens e dos usos do léxico das redes na sociologia das mobilidades nos coloca diante de questões a serem respondidas — como, por exemplo, em uma teoria social que desconfia das noções de “estrutura” e de “sociedade” (Urry, 2000), qual o ganho de se valer da análise de redes? Sugerimos que o conceito de capital de rede, tal como proposto por Urry em Mobilities (2007), ao aproximar o capital social do léxico das redes, sugere uma saída analítica que se atém tanto à interpelação de sujeitos e objetos em movimento quanto às infraestruturas materiais e intangíveis que o constituem, escapando das antinomias convencionais e permitindo usos criativos em questão de método e teoria. |
Participe do 22º Congresso Brasileiro de Sociologia

O 22º Congresso Brasileiro de Sociologia, realizado de 15 a 18 de julho de 2025, tem como objetivo central explorar uma série de questões inéditas e urgentes que marcam o cenário contemporâneo.
O evento se propõe a reativar a imaginação sociológica diante de desafios como o impacto das tecnologias digitais e da Inteligência Artificial, o agravamento das crises ambientais, o surgimento de novas formas de violência, o avanço das desigualdades e a crise das democracias frente a ondas conservadoras e extremismo político.
Nesse contexto, o Congresso busca valorizar diálogos interdisciplinares e estimular abordagens inovadoras para a compreensão de fenômenos sociais, promovendo conferências, simpósios, mesas-redondas, reuniões de grupos de trabalho e sessões especiais, além de integrar sociedade civil e comunidades acadêmicas latino-americanas por meio de formatos presenciais e online.
Mais informações no site do 22º Congresso da Sociedade Brasileira de Sociologia: https://www.sbs2025.sbsociologia.com.br/atividade/view?q=eyJwYXJhbXMiOiJ7XCJJRF9BVElWSURBREVcIjpcIjU2XCJ9IiwiaCI6IjIyNzdhN2IyNTQzMDE2ZmJlMGQ5MTk5MzE4ODA4ZTZmIn0%3D&ID_ATIVIDADE=56