Socióloga estudou a realidade dos decasséguis brasileiros

Mariana Shinohara Roncato imigrou com os pais, que foram trabalhar em fábrica no Japão

Roncato na ponta dos Seixas, em João Pessoa (PB), considerado o ponto mais oriental da América do Sul – Paulo Rossi  /  Urutau Fotografia

Nasci em São Paulo e sou descendente de japoneses por parte de mãe e de italiano com lituano pelo lado paterno. Em 1991, quando eu tinha 9 anos, meus pais decidiram imigrar para o Japão, engrossando a leva de decasséguis que marcaram aquela década no Brasil.

A palavra decasségui significa “sair de seu local de origem para ganhar dinheiro”. E, naquela época, passou a identificar descendentes de japoneses pelo mundo que se mudavam para o Japão em busca de melhores salários e executavam funções pouco qualificadas.

No Brasil, esse fluxo começou timidamente em meados dos anos 1980. No início da década seguinte, o governo japonês reformou sua lei imigratória e passou a conceder vistos para que descendentes de japoneses até a terceira geração, como era o caso da minha mãe, pudessem trabalhar no país. Com isso, a onda imigratória aumentou.

Vivi com meus pais na cidade de Toyota, sede da montadora japonesa de mesmo nome, na província de Aichi. Meus tios e primos maternos já estavam lá, o que facilitou nossa integração. Fomos morar em um conjunto habitacional apelidado de Little Brazil, tamanha a quantidade de brasileiros que abrigava.

A socióloga em 2017, em Tóquio, no Japão, durante o doutorado. Arquivo pessoal

Mesmo não tendo ascendência japonesa, meu pai trabalhou como operário em uma fábrica automotiva subcontratada da Toyota. Minha mãe atuou na linha de montagem da mesma fábrica por um curto período. Depois, teve um problema de saúde e deixou o emprego.

Eu não falava japonês quando cheguei à terra natal do meu avô materno, mas rapidamente aprendi a língua e me adaptei muito bem à cultura local. Durante a adolescência, só me comunicava em japonês e quase todas minhas amigas eram nativas.

No final da década de 1990, meu avô paterno ficou doente e meus pais decidiram retornar ao Brasil. Vim com eles, mas após um curto período, com dificuldade de adaptação, pedi para voltar. Minha mãe então me emancipou legalmente quando eu tinha 17 anos e morei no Japão até terminar o ensino médio.

Retornei ao Brasil no início dos anos 2000. Entre 2005 e 2009, fiz a graduação em Ciências Sociais na Universidade Estadual de Londrina [UEL], no Paraná. Ganhei uma bolsa de iniciação científica e realizei um estudo sobre o trabalho informal na cidade.

Para cursar o mestrado, voltei ao estado de São Paulo. Fiz minha pesquisa entre 2011 e 2013, na Unicamp [Universidade Estadual de Campinas], sob orientação do professor Ricardo Antunes, uma das principais referências no Brasil em estudos sobre sociologia do trabalho.

Na dissertação, busquei analisar o que estava acontecendo com os imigrantes brasileiros no Japão, mas sem deixar de levar em conta a situação da classe trabalhadora japonesa mais precarizada, a chamada working poor. Eu queria entender como esse tipo de trabalhador japonês e o imigrante são impactados por uma crise econômica.

Naquela época, o Japão vivia a ressaca da crise financeira mundial de 2008. No estudo, constatei que os trabalhadores imigrantes foram os primeiros a serem atingidos e muitos deles foram embora do país.

Ainda como parte da dissertação, investiguei a realidade dos chamados cyber refugiados. Eram japoneses em situação de rua que viviam de bicos e usavam os computadores de lan houses para procurar trabalho. Eles aproveitavam para dormir nesses estabelecimentos, que possuíam baias separadas, como se fossem pequenos quartos.

Em 2013, durante minha pesquisa, vivi seis meses em Paris para acompanhar meu companheiro na época, que foi fazer parte do mestrado na França. Ali conheci pessoalmente Helena Hirata, filósofa de formação e referência nos estudos sobre sociologia do trabalho e gênero.

Helena nasceu no Japão, cresceu no Brasil e se exilou na França na década de 1970, durante a ditadura militar [1964-1985]. Eu me aproximei das teorias feministas assistindo como ouvinte às suas palestras no CNRS [Centro Nacional de Pesquisa Científica], onde atualmente ela é diretora de pesquisa emérita.

Entre seus temas de estudo, está o fenômeno das mulheres japonesas que possuem diploma universitário, mas abandonam o mercado profissional após o casamento e a maternidade. Essa divisão do trabalho por imposição de gênero é algo marcante no Japão. Até hoje as mulheres são responsáveis por quase todas as tarefas domésticas. Muitas amigas com quem cresci abriram mão da carreira depois que se casaram e tiveram filhos.

Isso influenciou meu doutorado, que iniciei em 2014 na Unicamp, também sob orientação de Ricardo Antunes. Na tese, busquei entender as condições de trabalho da imigrante decasségui. Para realizar a pesquisa de campo, voltei a morar por um ano no Japão, entre 2016 e 2017, com apoio da FAPESP. Fui aceita como pesquisadora visitante da Universidade de Sophia, em Tóquio, e ia frequentemente à cidade de Toyota.

Para mim, foi uma emoção muito grande voltar ao Japão 15 anos após ter deixado o país. Retornei ao lugar onde cresci em outra condição: a filha de decasségui havia se tornado socióloga. Meus pais não tiveram a oportunidade de fazer faculdade e eu estava ali fazendo pesquisa acadêmica em um ambiente que me era familiar.

Meus primos trabalhavam em fábricas e me ajudaram a marcar entrevistas com outros decasséguis. Para ampliar a lista, eu frequentava supermercados, lanchonetes, academias e lojas voltadas para a comunidade brasileira em Toyota. Na ocasião, a comunidade brasileira no Japão reunia mais de 200 mil pessoas.

Na tese, mostro, por exemplo, que essas trabalhadoras têm remuneração 30% mais baixa e maior risco de serem demitidas em relação aos seus compatriotas imigrantes, além de serem vítimas de insultos de cunho sexista. Defendi minha pesquisa de doutorado em 2020. Agora, estou preparando a publicação da pesquisa em formato de livro, que deve sair no segundo semestre de 2026.

Em um pós-doutorado entre 2022 e 2024 na Unicamp, analisei a chamada plataformização do trabalho no Brasil e de que forma ela intensifica a precarização da vida dos trabalhadores. Isso ocorre, por exemplo, com o aumento das jornadas de trabalhos e o aprofundamento das desigualdades de raça e gênero.

Mais uma vez minha pesquisa foi supervisionada pelo Ricardo. Hoje, integro um grupo de pesquisa sobre trabalho, tecnologia e impactos sociais que ele coordena na Unicamp. Recentemente, nosso grupo lançou em parceria com o Ministério Público do Trabalho (MPT) de Campinas a campanha “#direitosdeverdade”. Uma das metas é mostrar que hoje essa plataformização não se restringe a motoristas e entregadores de aplicativos, estendendo-se a diversos segmentos do mundo do trabalho.

Atualmente moro em João Pessoa. Desde o início de 2025 sou professora-adjunta do Departamento de ciências sociais da Universidade Federal da Paraíba [UFPB] e do Programa de Pós-graduação em Sociologia da mesma universidade. Vivo um novo começo.

Depoimento concedido a Lia Hama, da Revista Pesquisa FAPESP. Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP. Leia o original aqui: https://revistapesquisa.fapesp.br/sociologa-estudou-a-realidade-dos-decasseguis-brasileiros/

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