A pesquisadora Karina Quintanilha entrega o relatório do projeto “Fórum Fronteiras Cruzadas: pesquisa, extensão e cultura” para Jorge Amâncio de Oliveira, Pró-Reitor de Cultura e Extensão da USP. Entenda os debates sobre a curricularização da extensão na FFLCH-USP, o impacto na pós-graduação e as experiências da UNICAMP e UNIFESP. Saiba mais!.
Entenda o impacto da curricularização da extensão na FFLCH-USP, as novas diretrizes da pós-graduação e as experiências na Unicamp e na Unifesp. A curricularização da extensão exige que, no mínimo, 10% da carga horária da graduação seja a atividades extensionistas. No 1º Seminário AEX na FFLCH-USP, gestores e pesquisadores debateram a implementação dessa regra no Sistema Apolo, o impacto da avaliação na pós-graduação via CAPES e os modelos adotados pela Unicamp e na Unifesp.
1º Seminário AEX na FFLCH: Desafios Estruturais, Curricularização e os Novos Horizontes da Extensão (curricularização da extensão)
A Constituição Federal brasileira exige que as universidades unam ensino, pesquisa e extensão como o tripé que sustenta a educação superior. No atual contexto de avanços na política de curricularização da extensão, a USP e outras instituições vivem o desafio de incluir a extensão como parte do programa curricular. O 1º Seminário AEX na FFLCH: balanço, diagnóstico e projeto acadêmico, debateu mecanismos para implementação do programa, a implementação de financiamento contínuo e os vínculos com a sociedade;
Durante o evento, a pesquisadora Karina Quintanilha entregou o relatório do projeto Fronteiras Cruzadas para Jorge Amâncio de Oliveira, Pró-Reitor de Cultura e Extensão Universitária da USP. O documento contribui na discussão de como a produção científica e extensionista pode responder às demandas das populações historicamente marginalizadas e contribuir para a defesa de direitos de pessoas imigrantes e refugiadas. O relatório também foi entregue ao Prof. Julio Suzuki (da Geografia), integrante da Comissão de Pesquisa da FFLCH.

Debate na Pós-Graduação e as Regras Nacionais
A extensão universitária insere-se em um marco regulatório nacional. A Plataforma Lattes também passa por mudanças para incluir os dados de atividades extensionistas. A perspectiva é a criação de um sistema centralizado de registros pelo governo federal para a área. Conforme destacado pelo Pró-Reitor Jorge Amâncio de Oliveira, o governo federal vem articulando a criação de uma espécie de “Apolo nacional”, uma plataforma para os registros.
Na pós-graduação, a extensão é um desafio ainda maior. Embora ainda não existam movimentos formais direcionando a curricularização obrigatória da extensão na pós-graduação nos moldes do que ocorre na graduação, os novos cadernos de avaliação da CAPES já pressupõem a inserção social e as práticas extensionistas dos programas.
A Radiografia da Extensão Universitária na USP
Um dos diagnósticos compartilhados no seminário refere-se à necessidade de superar os editais de fomento fragmentados. A descontinuidade dos recursos atrapalha os projetos de longo prazo. A proposta defendida pela Pró-Reitoria de Extensão e Cultura é dar estabilidade aos centros de extensão. O objetivo é transformar as ações dos grupos em linhas de trabalho contínuas, de modo a operar com previsibilidade orçamentária e operacional.
Para subsidiar essa transição, a USP iniciou um mapeamento,com o objetivo específico de levantar o tempo de vida dos projetos; o número de bolsistas; e o acompanhamento dos projetos mais longevos para colaborar nas formulações de novas diretrizes. O diagnóstico, induz discussões sobre o sub-relato de informações. Por diversos motivos, muitas unidades da universidade subnotificam suas ações extensionistas à reitoria, diminuindo o peso e a visibilidade política da extensão no jogo de forças interno da instituição.
Interlocuções sobre extensão UNICAMP e UNIFESP
O evento na FFLCH teve a participação de representantes de outras universidades públicas, com mediação da professora Iris Kantor (FFLCH-USP). A Professora Lais Silveira Fraga, da Unicamp, cuja pesquisa-extensão investiga as complexas relações entre a cidade e o espaço universitário, trouxe para o centro da reflexão o trabalho desenvolvido pelas Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares (ITCPs). Estes programas atuam diretamente no fomento à Economia Solidária e evidenciam a potência da extensão como atividade eminentemente acadêmica, capaz de atuar simultaneamente na qualificação profissional e como agente político transformador – uma concepção que, conforme apontou, ainda enfrenta resistências para se consolidar no imaginário acadêmico tradicional.
Para Lais a extensão é “o desejo de vínculo com a sociedade”. Espaço que precisa ser questionado, dado que determinados setores sociais têm sido historicamente privilegiados na relação com a universidade. Sendo urgente ampliar os horizontes para incluir comunidades, movimentos e coletivos tradicionalmente deixados à margem da pesquisa.
Para organizar o setor, a UNICAMP criou o Sistema de Registro das Atividades de Extensão, A plataforma visa mapear o fluxo de criação e execução de programações internas e integrá-las organicamente ao currículo. Trata-se de superar a ideia de extensão como mera “ação social” assistencialista para abraçar o reconhecimento de outros modos de conhecimento. Segundo a professora, o engajamento com a extensão liga-se intrinsecamente às conjunturas sociais, como o surgimento dos cursinhos populares a partir da mobilização do movimento negro, o que impactou a expansão do sistema universitário e o debate sobre cotas étnico-raciais.
Já o Professor Pedro Fiori, convidado da Unifesp para o evento, explicou que as instituições federais tendem a implementar a curricularização da extensão de forma mais célere. Ele lembrou que o Brasil tentou criar uma extensão popular nos anos 1960, com os Centros Populares de Cultura. Em 2012, a Política Nacional de Extensão definiu que a área deve focar na troca de saberes e na formação do aluno.
Na Unifesp, as ações ficam registradas em um sistema próprio de dados. A instituição fomenta a extensão por meio de bolsas e uma revista científica. No curso de História, por exemplo, os alunos vão a campo para realizar atividades extensionistas de preservação de memória em laboratórios audiovisuais mantidos por instituições públicas a fim de contribuir para construir conhecimento junto com o povo.
Os convidados enfatizaram que a diretriz para qualificar a curricularização seria dar total legibilidade ao percurso extensionista. A meta atual é deixar claro para o aluno, desde o início do curso, quais são os projetos de extensão abertos à participação. Uma aula comum dura poucos meses, mas a extensão exige parceria de longo prazo com as comunidades.
O Fronteiras Cruzadas na FFLCH
A USP precisou incorporar a resolução do Ministério da Educação que destina 10% da carga horária total do curso de graduação para atividades extensionistas. Segundo Heloisa Brito Albuquerque, especificamente a FFLCH, ainda enfrenta o desafio de ampliar seu conceito de extensão e construir uma política própria e consolidada, criando políticas de fomento. Já os/as alunos/as precisam de disponibilidade para se dedicarem a essas atividades. Heloisa alertou também sobre o que não é considerado AEX: por exemplo, as monitorias de PPEG e Iniciação Científica (IC) não pontuam como crédito de extensão, dado que o discente precisa exercer um papel de real protagonismo formativo na relação externa à universidade.
Para ajudar os professores, o Guia de Curricularização da USP estabelece novas regras operacionais. Para que uma atividade seja validada no Sistema Apolo como Atividade Curricular Extensionista (ACE), ela deve cumprir cumulativamente os pilares clássicos da extensão: a aplicação de conteúdo curricular com coordenação docente e a interação direta, ativa e horizontal entre os estudantes da USP e o público-alvo externo.
O Guia inova ao abrir espaço formal para mídias digitais. Materiais didáticos, podcasts, videocasts e publicações estruturadas de divulgação científica em canais de projetos (como o trabalho extensionista de comunicação do Fronteiras Cruzadas) podem ser computados como extensão, desde que possuam métodos explícitos de interação, feedback e avaliação com o público externo.
Durante sua participação no seminário, a pesquisadora Karina Quintanilha, pós-doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e co-coordenadora do Fórum Fronteiras Cruzadas na FFLCH, ressaltou o papel pioneiro do projeto Fronteiras Cruzadas na conquista da Portaria PRPI nº 959, de 25 de março de 2024, editada pela Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação (PRPI). A portaria disciplina o registro de pessoas que atuam em projetos de pesquisa ou inovação na USP sem estarem vinculadas aos programas formais da PRPI. No caso do Fronteiras Cruzadas, essa portaria permitiu a incorporação de lideranças de associações de migrantes com notório saber sobre os seus territórios como colaboradoras do projeto de extensão na FFLCH para atuar em atividades organizadas pelo Fórum, tais como Mesacast, oficinas com estudantes nos coletivos de imigrantes, formações nas escolas, eventos culturais, dentre outros.
O projeto, sob a coordenação geral da Profa. Vera Telles e Profa. Bianca-Freire Medeiros do PPGS-USPrecebeu menção honrosa da ANPOCS em 2024 e já recebeu apoio da Capes, do SPCine e de emendas parlamentares dos mandatos do Movimento Pretas (Deputada Estadual Monica Seixas) e do Deputado Estadual Eduardo Suplicy, que possibilitou a formação de uma equipe formada por pesquisadores/as e colaboradores/as acadêmicos vinculados a grupos de pesquisa e coletivos de migrantes.
Ao transitar da perspectiva de estudar as comunidades e coletivos de migrantes enquanto meros “objetos”, o Fronteiras Cruzadas tem contribuído para ampliar a participação de pessoas imigrantes e refugiadas como protagonistas lado a lado na produção de conhecimento científico, impulsionando a extensão popular como uma dimensão formativa essencial e uma ferramenta viva a serviço das lutas sociais, da transformação da cidade e dos direitos humanos.
Referências do Texto
- Constituição da República Federativa do Brasil (1988) – Artigo 207 (Princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão).
- Plano Nacional de Educação (PNE) – Diretrizes de inserção e a meta de destinação de 10% da carga horária da graduação para ações extensionistas.
- Resolução CNE/CES nº 7/2018 – Regulamentação e estabelecimento das diretrizes para a extensão universitária na educação superior brasileira.
- Fórum de Pró-Reitores de Extensão das Universidades Públicas Brasileiras (FORPROEX) – Política Nacional de Extensão Universitária (Conceitos de indissociabilidade, interação dialógica, interdisciplinaridade e impacto social).
- Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP (PRCEU) – Guia de Curricularização da Extensão Universitária dos Cursos de Graduação – 3ª Edição (Diretrizes operacionais e tramitação via Sistema Apolo/AEX).
- Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) – Diretrizes de curricularização, instâncias de assembleias de extensão e o funcionamento do sistema STECULT (Sistema de Registro das Atividades de Extensão).
- Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) – Modelo de percurso formativo em extensão, Laboratórios de Campo nos cursos de História/História da Arte, funcionamento do sistema SIEX e fomento via PIBEX.
- Relatório Analítico do Projeto “Fórum Fronteiras Cruzadas: pesquisa, extensão e cultura” (FFLCH-USP) –, focado no debate sobre as (i)mobilidades globais e na defesa de direitos de pessoas imigrantes e refugiadas.
- Doutrina de Paulo Freire – Conceito de Dialogicidade e a crítica aos modelos puramente difusionistas ou de mera prestação de serviços utilitaristas.
- Manifesto e Movimento Reformista de Córdoba (1918) – Bases históricas da autonomia e da função democrática/social da universidade latino-americana.








